Dào Dé Jīng - Tratado do Caminho e da Virtude

Autor: Lao Zi.
Tradução direta do chinês por Marco Moura.

Capítulos 01 a 14.

Cap. 01

O Caminho chamado de Caminho
Não é o Caminho em si.
O nome pelo qual se chama
Não é o nome em si.
O princípio do Céu e da Terra é inominável.
A mãe de todos os seres e fenômenos é nominável.
É pela constante falta de desejos
Que se concebe sua magnitude.
Pelo constante desejo
Se concebe a incerteza.
Ambos se manifestam igualmente
Embora difiram em seus nomes.
Expressos igualmente no mistério.
O profundo mistério,
O portal das múltiplas maravilhas.

Cap. 02

Sob o céu, todos conhecem a beleza como bela,
O que gera feiura;
Todos conhecem o bom como bom,
O que gera maldade.
Por isso, ter e não-ter, juntos prosperam,
Difícil e fácil, juntos se complementam,
Longo e curto, juntos dão a forma,
Alto e baixo, juntos dão a altura,
Melodia e voz, juntos se harmonizam,
Frente e atrás, juntos dão o segmento.
É por isso que o homem santo vive através da não-ação,
Segue o ensinamento da não-palavra.
Assume a condição de todas as coisas sem renunciar.
Prospera sem possuir,
Se firma sem hesitar,
Alcança o objetivo sem se apegar.
O homem de destaque não se apega,
É por isso que não some.

Cap. 03

Não enalteça o valor das coisas,
Para que o povo não dispute.
Não enobreça o que é de caro custo,
Para que o povo não venha a roubar.
Não deixe visível o que desperta o desejo,
Para não gerar ansiedade e confusão no povo.
É por isso que a maneira do homem santo
É tornar o coração vazio,
Tornar a carne forte,
Enfraquecer a ambição,
Fortalecer a essência;
Preservar constantemente o povo de concepções,
de desejos, e da ousadia da vontade humana.
Agindo pela não-ação,
Baseado no vazio, nada foge do controle.

Cap. 04

O Caminho escoa, no entanto,
Quando usado não deixa de estar cheio.
Oh mistério!
Pode ser um modelo para todos os seres.
Tira a agudeza,
Dissolve a desordem,
Harmoniza o brilho,
Iguala-se ao pó,
Oh profundeza!
Se parece com um reservatório.
Não faço idéia de quem é filho,
É anterior ao criador do mundo.

Cap. 05

O Céu e a Terra não são benévolos,
Encaram todas as coisas como cães de palha.
O homem santo não é benévolo,
Encara as pessoas em geral como cães de palha.
Entre o Céu e a Terra
É como um tubo de flauta, não é mesmo?
É vazio, mas não se prejudica,
Quanto mais se usa, mais produz.
O palavreado frequente empobrece,
Nem se compara a sustentar o essencial.

Cap. 06

O espírito do vale é imortal
É tido como o mistério feminino.
O portal do mistério feminino
É tido como a raiz do Céu e da Terra.
Continuamente existindo,
Seu uso não o desgasta.

Cap. 07

O Céu é infinito e a Terra vive por eras.
O Céu e a Terra podem durar eternamente,
Por não gerarem para si mesmos,
Isso possibilita que existam para sempre.
É por isso que o homem santo se posiciona atrás,
Mas se torna o primeiro,
Ele se retira, mas está sempre incluso.
A ausência do Eu não o desvirtua,
É por isso que o seu Eu prospera.

Cap. 08

A virtude superior é como a água.
A virtude da água é beneficiar a todos sem se opor.
Permanece onde todo mundo despreza,
É por isso que é tal como o Caminho.
Resida pela virtude da Terra,
Se concentre pela virtude do abismo,
Se iguale pela virtude da irmandade,
Fale pela virtude da palavra honesta,
Se endireite pela virtude da ordem,
Opere pela virtude da capacidade,
Se porte pela virtude da pontualidade.
O homem de destaque não pode ser enfrentado,
Justamente por se isentar.

Cap. 09

Mantenha bem, mas não completamente cheio,
Pois isso tira o sentido;
Afie, mas não até o extremo,
Pois assim não pode ser mantido muito tempo;
O tesouro que é deixado num local livre
Precisa ser cuidado;
Riquezas e honras não devem gerar vaidade,
Para assim não se perder no erro.
Conquistar um mérito, retirar o ego,
Assim é o Caminho do Céu.

Cap. 10

Assumir uma conduta de alma abraçando o uno,
Permite não se desintegrar?
Focar o sopro vital através da suavidade
Permite ser como um bebê?
Remover aquilo que encobre a visão,
Permite a não desfiguração?
O amor à pátria que governa os cidadãos,
Permite seguir pela não-ação?
O portal do Céu que se abre inteiro,
Permite a atuação do feminino?
Clarear as quatro direções,
Permite seguir pelo não-saber.
Do gerar e educar, gerar sem tomar posse;
Ter o seu lugar, mas sem desleixar;
Liderar, mas sem tiranizar,
Assim é a virtude oculta.

Cap. 11

Trinta raios convergem em uma roda,
Devido ao seu vazio,
O veículo é utilizável.
Pela argila trabalhada se tem um utensílio,
Devido ao seu vazio,
O utensílio tem utilidade.
Pela abertura das portas e janelas se tem uma casa,
Devido ao seu vazio,
A sala tem utilidade.
Portanto pelo existir se tem a serventia,
Pelo vazio se tem a utilidade.

Cap. 12

As cinco cores tornam os olhos cegos,
As cinco notas tornam os ouvidos surdos,
Os cinco sabores tornam a boca embotada,
A caça desenfreada deixa o espírito caótico,
O lucro difícil de se obter deixa a prosperidade estagnada.
É por isso que o homem santo,
Age em sua função sem agir pelos olhos,
Abandonando aquilo e ficando com isso.

Cap. 13

Graça e desgraça acompanham desastre,
Honra e dano acompanham o indivíduo.
Por que é dito que graça e desgraça acompanham desastre?
A graça corresponde ao inferior.
Possui-la é desastroso.
Perde-la é desastroso.
É por isso que é dito que graça e desgraça acompanham desastre.
Por que é dito que honra e dano acompanham o indivíduo?
Porque tendo um "Eu" é possível sofrer um dano,
Por causa do "Eu" existe o indivíduo,
No entanto o "Eu" não tem individualidade.
Que dano tem o "Eu"?
Portanto honrar servindo a individualidade como veículo sob o Céu,
Possibilita habitar sob o Céu.
Amar servindo a individualidade como veículo sob o Céu,
Possibilita ser confiante sob o Céu.

Cap. 14

Olhar sem ver
Chame de desaparecer.
Ouvir sem escutar
Chame de inconstância.
Manusear sem segurar
Chame de incapturável.
Esses três não podem ser analisados,
Porque juntos agem em unidade.
Sua superfície não é brilhante,
Sua profundeza não é escura,
Segue que não podemos nomear,
Retorna à não-forma.
Trata-se do estado do não-estado,
Forma da não-forma,
Trata-se do indistinto,
Encarar, mas não vê-lo de frente,
Seguir, mas não vê-lo de costas.
A antigüidade operava no Caminho
Para lidar com a existência atual.
Não se sabe o princípio da antigüidade,
Trata-se da idade do Caminho.